Nasci ouvindo que o amor tinha cerca.
Que o coração era uma casa com apenas um quarto.
Que desejar mais de uma pessoa era defeito.
Que permanecer era prova de caráter.
E que suportar era o preço de quem amava.
Eu acreditei.
Vesti esse amor como quem veste uma roupa apertada.
Doía, mas diziam que era assim mesmo.
Então permaneci onde a verdade já não morava.
Vi promessas esconderem mentiras.
Vi a fidelidade existir só no discurso.
Vi pessoas pedirem exclusividade enquanto cultivavam segredos.
E, por muito tempo, achei que havia algo de errado comigo.
Até entender que não era o amor que me machucava.
Era o silêncio.
Era a falta de coragem de dizer: "meu desejo mudou".
Era a mentira protegida pelo medo.
Era a posse fantasiada de cuidado.
Era a ideia de que alguém poderia pertencer a alguém.
Foi preciso me perder para voltar a mim.
Quando comecei a olhar minhas relações sem culpa, percebi que meu coração nunca foi pequeno.
Ele sempre soube criar moradas.
Aprendi que posso amar pessoas diferentes por razões diferentes.
Que nenhum afeto apaga o outro.
Que carinho não se divide como pão.
Que amor não diminui quando encontra outro amor.
Ele se transforma.
Hoje não caminho contando quantas pessoas cabem na minha vida.
Caminho perguntando quanta verdade cabe dentro dela.
Porque foi a verdade que me libertou.
A liberdade de dizer o que sinto.
De ouvir o que o outro sente.
De aceitar despedidas sem transformá-las em guerras.
De celebrar encontros sem transformá-los em prisões.
Hoje amo sem algemas.
Não porque seja fácil.
Mas porque escolhi que a sinceridade vale mais do que qualquer promessa vazia.
Descobri que compromisso não nasce da exclusividade.
Nasce da responsabilidade.
Do cuidado.
Da escuta.
Do respeito.
Hoje não tenho medo de dizer "eu te amo".
Também não tenho medo de ouvir um "não".
Nenhuma dessas palavras diminui quem eu sou.
Porque aprendi que meu valor nunca dependeu da permanência de alguém.
A mulher que existe em mim já não implora para ser escolhida.
Ela escolhe.
Escolhe quem entra.
Escolhe quem permanece.
Escolhe quem merece conhecer seus medos, seus desejos e sua delicadeza.
Talvez chamem isso de não monogamia.
Eu chamo de reencontro.
Porque, no dia em que deixei de tentar caber na história que escreveram para mim, comecei, enfim, a escrever a minha.
E, pela primeira vez, o amor não me pediu que eu desaparecesse para exist
ir.
Ele apenas me pediu coragem.
E eu fiquei.
Inteira.
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