quarta-feira, 12 de agosto de 2026

 

Entre a Liberdade e o Pau Miúdo

Eu sinto falta de nós.

Das nossas andanças da Liberdade ao Pau Miúdo,
como se o caminho fosse apenas uma desculpa
para adiar a hora de nos despedirmos.

Sinto falta das conversas que atravessavam a madrugada,
dos silêncios que também conversavam,
dos piqueniques improvisados,
da praça do Fórum,
do pão com mortadela e do suco dividido,
porque o banquete nunca esteve na comida,
mas na sorte de ter você ao meu lado.

Depois do meu trabalho,
antes do meu curso,
o mundo cabia naquele pequeno intervalo
em que nossas mãos se encontravam.

E como era bonito
quando você ia me buscar.

Andávamos de mãos dadas
como quem acreditava
que o amor era forte o suficiente
para vencer qualquer coisa.

E, por muito tempo,
ele foi.

A vida pesava.
O dinheiro faltava.
O cansaço batia.
Os dias eram difíceis.

Mas nada disso nos abalava.

A gente fazia do pouco um universo.
Transformava saudade em abraço,
fome em piquenique,
espera em conversa,
e qualquer esquina
virava o lugar mais bonito do mundo.

Ainda sinto teu abraço.

Aquele abraço demorado,
em que eu conseguia ouvir teu coração
como se ele estivesse dizendo meu nome.

E o teu cheiro...

Ainda hoje eu o reconheço.

Às vezes ele passa por mim escondido em alguém,
e meu coração, inocente,
ainda sai à tua procura.

Ainda sinto o gosto dos teus beijos.
Ainda lembro de esperar meu ônibus
torcendo para ele demorasse mais um pouco,
só para ganhar alguns minutos ao teu lado.

E quando eu disse,
sem importância alguma,
que gostava de beiju...

No dia seguinte você fez um.

Depois outro.

E outro.

Como se amar também fosse decorar
as pequenas vontades de quem a gente escolhe.

Você realizava meus desejos
antes mesmo que eu os pedisse.

Por isso nunca vou entender.

Se enfrentamos juntos
os dias mais difíceis...

Se sobrevivemos ao peso da vida...

Se nada conseguiu nos separar...

Por que foi justamente você
quem destruiu o que havia de mais bonito entre nós?

Por que partiu meu coração?

Por que me ensinou
que até o amor mais bonito
também pode mentir?

Eu sinto tua falta.

Sinto falta de nós,
das ruas,
dos abraços,
do teu cheiro,
do gosto da tua boca,
das caminhadas,
dos beijus,
das conversas,
da vida simples que parecia eterna.

Eu ainda te desejo.

Mas o desejo já não encontra o mesmo caminho.

Porque entre mim e você
agora existe uma distância
que não se mede em quilômetros.

Ela se chama confiança.

E, por mais que meu coração
ainda caminhe da Liberdade ao Pau Miúdo
procurando por nós,

ele já sabe

que existem amores
que continuam vivos na saudade,
mas nunca mais conseguem voltar para casa.


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